quarta-feira, 13 de abril de 2011

Clarice Lispector

Felicidade:
"Querida, divirta-se, vá ao cinema, vá a lugares bons, leia os livros que você quiser, faça um pouco de regime, fique contente."

"Por favor sejam felizes; eu o sou, a meu modo."

"Maury, ao contrário do que eu pensava, só está em Nápoles há poucos dias, tendo ficado em Argel por um tempo com o resto da comitiva. Assim foi bom porque ele ficou com o irmão; o que eu gostaria de estar fazendo."

"Um dia desses fomos ouvir Lohengrin e não gostei. Ópera é chata como ela só. E apesar de ser Wagner era pau e cansativa. O que eu sinto falta aqui é da Cinelândia, cheia de cinemas onde eu podia entrar a hora em que quisesse, sozinha ou acompanhada."
"Minha irmãzinha querida, que vontade de abraçar você que me deu! Não sei quando irei ao Brasil, mas irei com você ao cinema e compraremos doces para nos enjoarmos bem enquanto assistimos o filme policial."

Amor:
"Diante de um começo de cena que eu fiz, horrivelmente magoada, ouvi de novo o que eu sabia desde sempre - sempre fui um pouco cínica - : a de que os homens são assim mesmo, que possivelmente a monogamia não seja o estado ideal, que naturalmente ele sente atração pelas mulheres; que a sensação é de um deslumbramento e timidez; disse que eu não interpretasse demais, mas que era uma vaga sensação de vaidade de alguém poder gostar dele.

Perguntei: então você se sente na sociedade (vínhamos de estar com pessoas) como um rapaz que vai à festa? Ele respondeu que sim. Mas que eu seria sempre a melhor de todas e outras coisas do gênero. Que certamente sempre ele se controlava. Naturalmente até agora nunca houve nada. Em suma, é isso que você sabe.

Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior; nunca pensei que uma pessoa, um homem, fosse diferente; mas como me sinto mal, como estou calcinada, como me parece estranho tudo o que me parecia familiar.

Estou tão enjoada de mim e de todas as outras mulheres... Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair de mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga.

Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens mas isso me cansa, e pior me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos."
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Registros de viagem:
"A vida é igual em toda parte e o que é necessário é a gente ser a gente."

África, 1944:
Tallah, Kabbe e Sasstown: "As negras de busto nu nos lugares onde eles aportaram, elas usam qualquer coisa para tapar, mas com uma displicência que dá no mesmo. De repente a gente ouve uns negrinhos gritarem: hello! Adoram dar adeus e riem tanto que a gente fica encabulada. Umas crianças têm o umbigo tão grande como laranjas. São tão, tão negros que Marcinha jamais chamaria aquela cor de "marrão". As negras jovens pintam o rosto com traços de creme e o lábio inferior com tinta cor de azinhavre, de chumbo. Uma delas me pediu meus sapatos. Carregam os filhos às costas."

"Os negros andam em Bolama com roupas parecidas às dos árabes, se bem que diferentes em cor e em modo de atar (o que torna, enfim, tudo diferente...). E falam português de Portugal, imaginem."

"Dakar é muito bonito, grande, mas o aspecto é de cidade pequena. Tem praias com rochedo, lindas. Mas faz um calor insuportável."

"O avião estava cheio de missionários. Não sei para que vão perturbar os pobres negros."

Portugueses:
"Viajei também com vários, todos ligeiramente burros."

"Quando estive em Lisboa que não está em guerra, fiquei boba. Não se dá um passo sem que alguém não peça esmola. E me disseram que a prostituição lá é terrível, abundantíssima e desde a idade de 13, 14 anos. A guerra é boa talvez no sentido de chamar a atenção para certos problemas. Talvez incorporem estes na resolução de outros propriamente de guerra."

"Lisboa não me agradou. Eu pensava encontrar coisa diferente. O Rio é milhões de vezes mais bonito e mais cidade. Os portugueses são paus. As portuguesas não se vestem bem, têm todas mandíbulas de cão e rosto meio duro. Estou chateada aqui. Encontrei Ribeiro Couto, da Embaixada, que me levou a passeios realmente bonitos. Mas estou chateada. Imaginem que aqui às 10 horas da noite faz sol ainda. é detestável. Não estou tendo prazer em viajar.Gostaria de estar aí com vocês."

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