segunda-feira, 11 de abril de 2011

Klee e Benjamin

O anjo da história deve ter esse aspecto.

Seu rosto está dirigido para o passado.
Onde nós vemos uma cadeira de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e junta fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.

domingo, 10 de abril de 2011

deja vu (segundo portuga do dia)

Que a vida tem ironias, diz-se, quando o certo é ser ela a mais obtusa de todas as coisas conhecidas, um dia deve ter havido alguém que lhe disse, Segue em frente, sempre em frente, não saias do caminho, e desde aí, inepta, incapaz de aprender com as lições que faz gala de nos dar, não tem feito mais que cumprir às cegas a ordem que lhe deram, atropelando quanto vai encontrando por diante, sem parar para avaliar os estragos, para pedir-nos desculpa, ao menos uma vez.
Saramago, O homem duplicado.

tão longo adeus para breve vida

há zonas da cidade que evito, uma série de restaurantes
onde não penso voltar. tenho muito medo de te encontrar. só ou acompanhada, tanto faz. minto. o ciúme ataca a horas incertas mesmo depois de tudo se julgar acabado. muito medo de não poder saber de antemão o que vou sentir, como vai ser, não poder antever o golpe. o medo de todas as palavras ridículas, e todas elas serão ridículas, de todos os gestos desajeitado, e não haverá nenhum que possa reclamar como meu. medo de ficar a pensar violentamente em ti du-rante horas, sabe-se lá onde, sem conseguir regressar ao normal correr do tempo. uma intromissão que exige o álcool que se põe, embebido em algodão, na ferida que reabriu para que de novo arda, palavras aflitas de uma conversa em que só eu estou de facto interessado e vou aumentando a parada provocando a memória até que faça doer. e depois o regresso a casa com o corpo anestesiado, a música aos berros, a vontade que tudo se desfaça no instante para o qual falta a coragem. chegar a casa e agarrar numa última garrafa e nas tuas fotografias até me virem os: vómitos, as lágrimas, o ranho que expulse de mim o que guardo no mais fundo e me traz a vida vazia e inútil.
tenho tanto medo de te encontrar que mesmo nunca te encontrando estás mais presente que todos os que vejo girar à minha volta.

pedro paixão

terça-feira, 29 de março de 2011

Freud e a academia

Profissionalmente, as frustrações que o perseguiam desde o início da carreira provocaram, em 1895, uma amargura que beirava o desespero. Querendo ser cientista pesquisador, desde cedo Freud fora obrigado, pela sua pobreza, a seguir a carreira médica. É verdade que, em 1885, ganhou com facilidade uma invejável bolsa de estudos em Paris, e logo depois foi indicado para um hospital da universidade, onde podia ter material clínico de ensino e pesquisa. Mas o hospital infantil de Viena, ao qual, desde 1886, se associou por dez anos, poucas oportunidades de pesquisa e nenhum prestígio podia lhe oferecer. Fracassaram as tentativas de transformá-lo numa clínica aplicada da universidade. A afronte mais mortificante que Freud teve de sofrer, porém, foi não conseguir uma cátedra. Sua longa espera - ao todo, dezessete anos, sendo que a regra, na faculdade de medicina, eram oito anos - coroou seu isolamento intelectual, a frustração profissional e o mal-estar social pelo que aparentava ser um fracasso acadêmico (SCHORSKE, 182).

Quando, aos 45 anos, foi finalmente nomeado como professor-adjunto, o ainda desconhecido dr. Freud relatou o evento a um amigo com uma paródia jornalística. Descreveu sua promoção como uma vitória política.
O entusiasmo  público é imenso. Chovem congratulações e ramalhetes de flores, como se o papel da sexualidade tivesse sido repentinamente reconhecido por Sua Majestade, a interpretação dos sonhos ratificada pelo Conselho de Ministros e a necessidade da terapia psicanalítica da historia aprovada por maioria de dois terços no Parlamento (SCHORSKE, 179).

Em uma outra carta, menos chistosa e amarga, na qual confessava ter recorrido à ajuda de pessoal socialmente influentes para a obtenção do cargo, escreveu:
Quando voltei de Roma, meu gosto pela vida aumentara um pouco, meu gosto pelo martírio diminuíra. (...) Assim, me decidi romper com meus escrúpulos estritos e dar os passos apropriados. (...) É preciso procurar a salvação pessoal em algum lugar, e a salvação que eu escolhi foi o título de professor. (SCHORSKE, 182).

SCHORSKE, Carl. Viena: fin-de-siècle: política e cultura. São Paulo: Cia das Letras/ Editora da Unicamp, 1989.

quarta-feira, 16 de março de 2011

ilusões de grandeza

- ah, meu filho, se você não ganhou o prêmio é porque na comissão julgadora só tinha burro!
- ah, papai! vc é o maior!
- mas é, meu filho, se você tirar as melhores notas da turma, eu te dou um presentinho...
- ah, papai! você é o mais engraçado, o mais legal, o mais bem sucedido, o mais MAIS!
- ô, fiote! vc tem que dar tudo de si! no futuro vc já vai estar acostumado. vc vai ver: o mercado de trabalho não perdoa!
- ah, papai!








"A educação em nossos meios familiares se limita, em regra, a estimular a competitividade, excitar a ambição e despertar no espírito a vaidade e as ideias de grandeza. Isto não sucede por inconsideração, mas porque toda a nossa cultura se acha infiltrada de similares ilusões.
Na família, assim como em nossa civilização, o interesse se volta para o indivíduo maior melhor e mais glorioso do que todos os outros de seu meio.
Como se pode facilmente prever, esse método é bem pouco interessante à vida em coletividade. O é, também, aos indivíduos, separadamente, pois ocorre que seu desenvolvimento mental pode ser entravado pelas dificuldades que a ambição e as ilusões de grandeza atravessam em seus caminhos."
ADFLER, Alfred. A ciência da natureza humana. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.

terça-feira, 15 de março de 2011

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“Não existem provas concretas da realidade total, nem sólidas certezas – exceto as da angústia, da dúvida e do enigma.”


Murilo Mendes

segunda-feira, 14 de março de 2011

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"Há várias maneira sérias de nao se dizer nada.
Mas só a poesia é verdadeira."

Manoel e Barros.