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terça-feira, 26 de julho de 2011

melancolia

"Rapazes, não confundam minha calma com a melancolia comum. Não tem melancolia nenhuma aqui. Sou feliz. Estou convencido que cumpro o destino que deviam ter meu corpo em sua transformação, minha alma em sua finalidade.
E passo bem, muito obrigado."

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Clarice Lispector

Felicidade:
"Querida, divirta-se, vá ao cinema, vá a lugares bons, leia os livros que você quiser, faça um pouco de regime, fique contente."

"Por favor sejam felizes; eu o sou, a meu modo."

"Maury, ao contrário do que eu pensava, só está em Nápoles há poucos dias, tendo ficado em Argel por um tempo com o resto da comitiva. Assim foi bom porque ele ficou com o irmão; o que eu gostaria de estar fazendo."

"Um dia desses fomos ouvir Lohengrin e não gostei. Ópera é chata como ela só. E apesar de ser Wagner era pau e cansativa. O que eu sinto falta aqui é da Cinelândia, cheia de cinemas onde eu podia entrar a hora em que quisesse, sozinha ou acompanhada."
"Minha irmãzinha querida, que vontade de abraçar você que me deu! Não sei quando irei ao Brasil, mas irei com você ao cinema e compraremos doces para nos enjoarmos bem enquanto assistimos o filme policial."

Amor:
"Diante de um começo de cena que eu fiz, horrivelmente magoada, ouvi de novo o que eu sabia desde sempre - sempre fui um pouco cínica - : a de que os homens são assim mesmo, que possivelmente a monogamia não seja o estado ideal, que naturalmente ele sente atração pelas mulheres; que a sensação é de um deslumbramento e timidez; disse que eu não interpretasse demais, mas que era uma vaga sensação de vaidade de alguém poder gostar dele.

Perguntei: então você se sente na sociedade (vínhamos de estar com pessoas) como um rapaz que vai à festa? Ele respondeu que sim. Mas que eu seria sempre a melhor de todas e outras coisas do gênero. Que certamente sempre ele se controlava. Naturalmente até agora nunca houve nada. Em suma, é isso que você sabe.

Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior; nunca pensei que uma pessoa, um homem, fosse diferente; mas como me sinto mal, como estou calcinada, como me parece estranho tudo o que me parecia familiar.

Estou tão enjoada de mim e de todas as outras mulheres... Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair de mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga.

Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens mas isso me cansa, e pior me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos."
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Registros de viagem:
"A vida é igual em toda parte e o que é necessário é a gente ser a gente."

África, 1944:
Tallah, Kabbe e Sasstown: "As negras de busto nu nos lugares onde eles aportaram, elas usam qualquer coisa para tapar, mas com uma displicência que dá no mesmo. De repente a gente ouve uns negrinhos gritarem: hello! Adoram dar adeus e riem tanto que a gente fica encabulada. Umas crianças têm o umbigo tão grande como laranjas. São tão, tão negros que Marcinha jamais chamaria aquela cor de "marrão". As negras jovens pintam o rosto com traços de creme e o lábio inferior com tinta cor de azinhavre, de chumbo. Uma delas me pediu meus sapatos. Carregam os filhos às costas."

"Os negros andam em Bolama com roupas parecidas às dos árabes, se bem que diferentes em cor e em modo de atar (o que torna, enfim, tudo diferente...). E falam português de Portugal, imaginem."

"Dakar é muito bonito, grande, mas o aspecto é de cidade pequena. Tem praias com rochedo, lindas. Mas faz um calor insuportável."

"O avião estava cheio de missionários. Não sei para que vão perturbar os pobres negros."

Portugueses:
"Viajei também com vários, todos ligeiramente burros."

"Quando estive em Lisboa que não está em guerra, fiquei boba. Não se dá um passo sem que alguém não peça esmola. E me disseram que a prostituição lá é terrível, abundantíssima e desde a idade de 13, 14 anos. A guerra é boa talvez no sentido de chamar a atenção para certos problemas. Talvez incorporem estes na resolução de outros propriamente de guerra."

"Lisboa não me agradou. Eu pensava encontrar coisa diferente. O Rio é milhões de vezes mais bonito e mais cidade. Os portugueses são paus. As portuguesas não se vestem bem, têm todas mandíbulas de cão e rosto meio duro. Estou chateada aqui. Encontrei Ribeiro Couto, da Embaixada, que me levou a passeios realmente bonitos. Mas estou chateada. Imaginem que aqui às 10 horas da noite faz sol ainda. é detestável. Não estou tendo prazer em viajar.Gostaria de estar aí com vocês."

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Klee e Benjamin

O anjo da história deve ter esse aspecto.

Seu rosto está dirigido para o passado.
Onde nós vemos uma cadeira de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e junta fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.

domingo, 10 de abril de 2011

deja vu (segundo portuga do dia)

Que a vida tem ironias, diz-se, quando o certo é ser ela a mais obtusa de todas as coisas conhecidas, um dia deve ter havido alguém que lhe disse, Segue em frente, sempre em frente, não saias do caminho, e desde aí, inepta, incapaz de aprender com as lições que faz gala de nos dar, não tem feito mais que cumprir às cegas a ordem que lhe deram, atropelando quanto vai encontrando por diante, sem parar para avaliar os estragos, para pedir-nos desculpa, ao menos uma vez.
Saramago, O homem duplicado.

tão longo adeus para breve vida

há zonas da cidade que evito, uma série de restaurantes
onde não penso voltar. tenho muito medo de te encontrar. só ou acompanhada, tanto faz. minto. o ciúme ataca a horas incertas mesmo depois de tudo se julgar acabado. muito medo de não poder saber de antemão o que vou sentir, como vai ser, não poder antever o golpe. o medo de todas as palavras ridículas, e todas elas serão ridículas, de todos os gestos desajeitado, e não haverá nenhum que possa reclamar como meu. medo de ficar a pensar violentamente em ti du-rante horas, sabe-se lá onde, sem conseguir regressar ao normal correr do tempo. uma intromissão que exige o álcool que se põe, embebido em algodão, na ferida que reabriu para que de novo arda, palavras aflitas de uma conversa em que só eu estou de facto interessado e vou aumentando a parada provocando a memória até que faça doer. e depois o regresso a casa com o corpo anestesiado, a música aos berros, a vontade que tudo se desfaça no instante para o qual falta a coragem. chegar a casa e agarrar numa última garrafa e nas tuas fotografias até me virem os: vómitos, as lágrimas, o ranho que expulse de mim o que guardo no mais fundo e me traz a vida vazia e inútil.
tenho tanto medo de te encontrar que mesmo nunca te encontrando estás mais presente que todos os que vejo girar à minha volta.

pedro paixão

terça-feira, 15 de março de 2011

...

“Não existem provas concretas da realidade total, nem sólidas certezas – exceto as da angústia, da dúvida e do enigma.”


Murilo Mendes

segunda-feira, 14 de março de 2011

...

"Há várias maneira sérias de nao se dizer nada.
Mas só a poesia é verdadeira."

Manoel e Barros.

o intérprete de Château Meguru

Salomón Toledano se gabava de falar 12 línguas e poder interpretar todas elas em ambas as direções. Geralmente traduzia para o inglês, mas quando era preciso também o fazia para o francês, espanhol e outros idiomas, e sempre me maravilhou a fluidez com que se expressava na minha língua sem nunca ter morado num país de fala hispânica. O mais extraordinário era ouvi-lo falar em chinês ou japonês, porque então, sem perceber, fazia poses, mesuras e gestos dos orientais, como um verdadeiro camaleão.

Todo mundo o admirava e invejava, mas poucos dos nossos colegas gostavam dele. Ficavam incomodados com sua loquacidade, sua falta de tato, suas criancices e avidez com que monopolizava as conversas. Um dia, na sala de intérpretes da Unesco, resolveu nos interpelar assim: “E se, de repente, sentirmos que vamos morrer e nos perguntarmos ‘Que rastro deixaremos de nossa passagem por este canil?’, a resposta honesta seria: nenhum, não fizemos nada, além de falar pelos outros. O que significa, então, ter traduzido milhões de palavras se não nos lembramos de nenhuma, porque nenhuma merecia ser lembrada?”

Falava de maneira espalhafatosa e às vezes vulgar, porque, embora soubesse as generalidades dos idiomas, desconhecia os matizes, tons e usos locais, o que muitas vezes o fazia parecer tosco ou grosseiro. Não era um homem de muitas leituras, exceto gramáticas e dicionários, nem tinha grande interesse por cultura. O contrário da minha suposição de que as pessoas se tornam poliglotas devido ao seu bom ouvido musical, Salomón Toledano também não tinha o menor interesse por música. No seu apartamento em Neuilly não vi sequer um toca-discos.

Graças a ele descobri que a predisposição para idiomas é tão misteriosa como a de certas pessoas para a matemática ou a música, e não tem nada a ver com a inteligência ou o conhecimento. É uma coisa diferente, um dom que alguns possuem e outros não.

VARGAS LLOSA, Mario. Travessuras da menina má. Rio: Objetiva, 2006.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

novidade e capitalismo

--> sobre o que há de NOVO num sistema capitalista.
--> sobre o velho novo.
--> sobre o novo velho.
--> sobre a mediocridade universal.

"Se, como Marx acredita, os membros da burguesia de fato desejam um mercado livre, sua opção será forçar a livre entrada de novos produtos no mercado. Isto implica, em contrapartida, que toda sociedade burguesa desenvolvida de maneira plena seja uma sociedade genuinamente aberta, não apenas em termos econômicos mas também políticos e culturas, de modo que as pessoas possam sair livremente às compras e à procura dos melhores negócios em termos de idéias, associações, leis e compromissos sociais, tanto quanto em termos de coisas.


O princípio da livre troca forçaria a burguesia, portanto, a garantir até mesmo aos radicais o direito de oferecer, promover e vender seus produtos ao maior número de consumidores que seguirem atrair. Em outras palavras: impelida por suas próprias energias e movimento, a burguesia abrirá as comportas políticas e culturais através das quais fluirão transformações efetivamente profundas.


Essa dialética oferece algumas dificuldades. Haveria mesmo uma plena adesão da burguesia ao princípio da livre troca, seja em economia, em política ou em cultura? De fato, na história burguesa esse princípio tem sido mais honrado na violação do que na observância. Os membros da burguesia, sobretudo os mais poderosos, em geral se esforçam por restringir, manipular e controlar seus mercados. Muito de sua energia criativa, ao longo dos séculos, tem sido canalizada para arranjos nesse sentido: monopólios por concessão, companhias acionistas, trustes, cartéis e conglomerados., tarifas protecionistas, subsídios estatais abertos ou disfarçados, tudo isso acompanhado de hinos em louvor do livre mercado.


Aqui Marx pode correr o perigo - um perigoso perigo para ele - de ser arrastado pelo que dizer os ideólogos burgueses e de perder o contato com o que os homens de dinheiro e poder REALMENTE FAZEM. Marx diria que a necessidade de progresso e inovação capitalista forçaria os burgueses a abrir suas sociedades até mesmo às idéias que os atemorizam. No entanto, a engenhosidade burguesa pode impedir isso, através de uma dada inovação verdadeiramente insidiosa: um consenso em termos de mediocridade.


Marx diz que, quando atuam como FREIO no livre desenvolvimento, as estruturas características do sistema capitalista tendem a ser simplesmente eliminadas. "Precisam ser aniquiladas, estão aniquiladas", ele diz. Mas o que aconteceria se, por acaso, elas não fossem aniquiladas? Marx se permite imaginar essa hipótese por um instante, para descartar a possibilidade. "Perpetuar tal sistema social seria decretar a MEDIOCRIDADE e universal". E isso é talvez o que Marx é profundamente incapaz de aceitar."

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras, 2005.

aham, ta

"Minha vida foi singularmente pobre em acontecimentos exteriores. Sobre estes não posso dizer muito, pois se me afiguram ocos e desprovidos de consistência. Eu só me posso compreender à luz dos acontecimentos interiores. São estes que constituem a peculiaridade de minha vida e é deles que trata minha autobiografia."


JUNG, C. G. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sobre a "escola da vida"

alfred adler:
- depois de dizer que a família tende a não educar direito, porque, mimando ou tratando a criança de maneira autoritária, desperta nela a ânsia por dominação....
- depois de dizer que as escolas de seu país tratam de incorrer no mesmo risco...
- reflete sobre o clichê generalizado de que é a vida que ensina.
- a ânsia por dominação, a vaidade e a ambição são, para ele, os principais erros enxertados na contemporanidade, porque, mesmo que dissimuladamente, atravancam e desvirtuam o senso de sociabilidade e de fraternidade, inato e natural do ser humano.

"Mas a vida, também, tem as suas limitações especiais. Não é ela apropriada a transformar o ser humano, embora pareça, às vezes, fazer isso. A vaidade e a ambição dos homens não o permitem. Por mais erros que um homem cometa, ele apenas se cifrará a recriminar o resto da humanidade, ou a sentir que a sua condição é irrevogável. Raramente encontramos alguém que, havendo dado cabeçadas e cometido erros, se detenha a reconsiderar o que fez.
A própria vida não pode produzir nenhuma mudança especial. Isto é psicologicamente compreensível, porque a vida trata com produtos já acabados do gênero humano, com seres que já têm seus pontos de vista definidos, que se esforçam, todos eles, para conseguir dominar seus iguais. Assim, exatamente ao contrário do que se possa pensar, a vida é o pior dos educadores. Ela não tem consideração por nós, não nos adverte, não nos ensina; limita-se a castigar e a nos deixar morrer."


- pode ser um exagero, ou uma bobagem.
mas nao deixa de ser interessante...


ADLER, A. A ciência da natureza humana. São Paulo: Editora Nacional, 1940.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

(A.P.)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

o jung abaixo me fez lembrar esse morse:

uma crítica ao clichê mor "aaahhh, mas se pudéssemos ser como os EUA...."
uma reflexão sobre a 'tecnificação' das inteligências, do pensamento, do homem contemporâneo

"Ao matricular-se em universidades anglo-americanas, cada calouro universitário recebe um manual de como escrever 'trabalhos semestrais', de como deve documentar cada afirmação, conectá-las sempre em linha reta e escrever com a 'clareza' dos redatores de publicidade (treinados em universidades), trilhando sempre o caminho das idéias recebidas e EVITANDO A DIFICULDADE DE PENSAR.
O uso de 'materiais auxiliares' gravados, filmados e televisados vincula as aulas com os meios de comunicação e ajuda a provocar um curto-circuito no processo reflexivo, a reforçar a aprendizagem por reação, desgastando assim a autonomia mental do estudante.
Ao impor a rendição passiva a torrentes de palavras e imagens, a invasão eletrônica substitui a lógica discursiva pela associação livre. A assimilação inferior da cultura cede ante a imposição de uma sensibilidade e de um comportamento apropriados para uma sociedade tecnificada. Desse modo, o 'establishment' domestica e institucionaliza clássicos subversivos do pensamento moderno, fazendo com que venha a se graduar 'freaks ecológicos' em vez de Hegels e Nietzsches em potencial. Quanto menos chances oferecer a situação histórica de que as grandes obras efetivamente inspirem a ação humana, menores são os obstáculos para a sua publicação; quanto maior o empenho dos estudiosos ao escrever, menos significativo é o efeito comercial/editorial de suas obras.
(...)
A objetividade como método não faz senão refletir os calculados acordos dos comitês, comissões, fundos e fundações que engendram e administram as indústrias da cultura e da educação. O PENSAMENTO PERDE AUTONOMIA e confiança para abarcar a realidade, e o discurso transforma-se em pura comunicação, em vez de uma auto-expressão que PODERIA PROVOCAR DÚVIDAS E DESAGRADAR A AUDIÊNCIA.
Cindido entre experiência sensorial acumulada e formalismo lógico, o pensar é pouco mais que verificar a cada momento se somos realmente capazes de pensar. A socialização da mente encaixota-a, paralisa-a por intermédio da consciência moldada à necessidade social consensual e impede-a de imaginar conteúdos novos para a sociedade.
(...)
Ora, a questão não é que na Ibero-América a educação formal se ajuste com mais elegância à necessidade social ou às verdades eternas do que na Anglo-América. Boa parte do que oferecem as universidades ibero-americanas é tendencioso, pedante, derivativo, diplomática ou forçadamente obediente à autoridade, além de estarem mal equipadas no que se refere a bibliotecas e a toda a parafernália de computadores e laboratórios de idiomas.
Porém, o que conta é a sociologia e não a modernidade do empreendimento intelectual. E o fato é que tais universidades também carecem da habilidade das anglo-americanas para cooptar e esterilizar os 'escritores criativos' os marxistas, as feministas e os etnicamente estigmatizados."

MORSE, Richard. "O espelho de Próspero". São Paulo: Cia das Letras, 2001.

jung sobre o q aprender com um introvertido

uma crítica aos clichês intelectuais
uma crítica aos "homens inferiores" que se apegam aos clichês
uma crítica aos homens em geral que se dobram frente a isso
mais uma sugestão do "marginal" como alternativa.

"Um homem introvertido ensina mais com sua vida do que com suas palavras. E o faz de maneira tão proveitosa que nos faz pensar num dos maiores erros da nossa cultura, que é a superstição da palavra e da explicação, a supervalorização desmedida do ensino verbal e metódico.


É certo que uma criança fica impressionada pelas pomposas palavras de seus pais, chegando mesmo a acreditar que elas a educam. Na realidade, o que a educa é aquilo que seus pais vivem. Tudo o mais que acrescentarem com gestos verbais só poderá servir para aumentar a confusão.


Vale dizer o mesmo dos professores. Mas acredita-se nos métodos a um extremo tal que, contanto que o método seja aproveitável, santifica-se o professor que se servir dele. Sim, um homem inferior nunca poderá ser um bom mestre. Contudo, esconderá sua nefasta inferioridade, que envenena secretamente o discípulo, por trás da opulência magnífica do dito método.


Naturalmente, o discípulo já mais formado nada de melhor pede que o conhecimento dos métodos úteis, uma vez que já se integrou  na tendência geral que acredita nos métodos vitoriosos. ele teve a oportunidade de comprovar, por experiência, que o indivíduo de cabeça mais vazia pode chegar a ser o melhor discípulo, se aprender a repetir fielmente um método. À sua volta, vê e ouve, na vida e nas palavras, que todo êxito e boa sorte estão "fora", bastando escolher o método mais conveniente para conseguir o que se quer.


Sem dúvida nenhuma, os tipos irracionais introvertidos não são os mestres da humanidade hoje. Mas suas vidas apontam-nos a outra possibilidade, aquela que, infelizmente, está faltando em nossa cultura."

JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Rio: Zahar, 76. p. 466-467.