terça-feira, 26 de julho de 2011

melancolia

"Rapazes, não confundam minha calma com a melancolia comum. Não tem melancolia nenhuma aqui. Sou feliz. Estou convencido que cumpro o destino que deviam ter meu corpo em sua transformação, minha alma em sua finalidade.
E passo bem, muito obrigado."

terça-feira, 3 de maio de 2011

Capitalismo, uma história de amor - filme

Teoria sobre o capitalismo:
--> capitalismo: gera concorrência: gera excelência: seleção do melhor.
Verdade sobre o capitalismo:
--> grande capital: inibe a concorrência, ou se aproveita da ausência dela (num caso de guerra, por ex): apresenta qualquer bosta que enriqueça ainda mais os que já são ricos.

Força do grande capital:
X sindicatos
- trabalhadores
+ desempregados
> produtividade
+ encarcerados
> venda de anti-depressivos.

O capitalismo contra os norte-americanos:
X empregos/ desempregos em massa, em nome da proteção do lucro dos patrões;
X hipotecas/ incentivo à dívida, enforcamento monetário, tomada das moradias, venda e lucro;
X democracia/ promoção do medo e manipulação da massa (caso da guerra do Iraque e dos empréstimos concedidos aos bancos, no governo Bush);
X liberdades/ jovens encarcerados pelo sistema privado, lucro de empresários da área e de juízes corruptos;
X salários decentes para profissões importantes, como a dos pilotos;
X melhores profissionais em profissionais que sirvam à humanidade (para pagar a universidade --> dívidas --> para pagar as dívidas --> empregos em bancos, com "derivativos"/ complicados sistemas de aposta; aliás, propositalmente complicados);
X vida/ lucro com mortes: em guerras ou através de apólices em nome de empregados;
X igualdade: bancos e grandes investidores não prestam contas; não existe justiça trabalhista.

Cinismo capitalista:
Convence as vítimas do sistema a apoiar o sistema.
Esperanças de que "um dia chego lá". Esperança vã.

Novas desculpas para o mesmo sistema:
Existe hoje corrente a visão de que a política não funciona, mas individualmente, cada um de nós, como consumidores e trabalhadores (engrenagens do sistema), pode mudar as relações sociais... até que essas mudanças se tornem norma generalizada.
Acho cabível, e vem de encontro às idéias de Fresco... Mas deve-se sempre atentar para o perigo da individualização excessiva.

Zeitgeist - o filme


    Partes:
    1. A maior história já contada.
    2. O mundo inteiro é um palco.
    3. Não se importem com os homens atrás da cortina.

    Idéias fundamentais:

    1. Capitalismo é dívida!!! Capitalismo é desigualdade!!! Capitalismo não é liberdade, é prisão!
    Dinheiro (de homens, mulheres, ou empresas gigantescas) à empréstimo à dívida à Trabalho.
    Empréstimos fracionados e dinheiro fictício = para empresas gigantescas/ ricos.
    Por isso: trabalho da classe média e dos pobres = escravidão moderna.


    2. Capitalismo é anti-democracia.
    2.1. Internacionalmente falando...
    * FMI/Estados Unidos (poder de veto – maior capital via empréstimos fracionados) à geram dívidas reais e dependência em diversos países do globo.
    Tendo isso em vista, como se relacionam com diversos países do globo?
    1º. Negociam
    2º Enviam assassinos econômicos
    3º Deflagram guerra
    2.2. Dentro dos EUA...
    a) Imprensa mentirosa: 
    Serve àqueles mesmos interesses empresariais.
    Tem apoio internacional, é contagiosa, epidemia de miopia.
    Exemplo: a verdade é que a Al Qeda não existe!!!

    b) Relação entre governo (Democratas ou Republicanos) e empresas:
    - Corrupção no governo; 
    - Política é uma instituição falsa: só faz à leis, orçamento e guerra;
    - Leis, orçamento e guerra são desnecessários.
    - Política serve para empregar uns poucos, e desviar a atenção de uns muitos.


    3. Capitalismo não produz excelência:
    - Não, empresas não se importam com as pessoas;
    - Ninguém confia em ninguém; corrupção nas relações,  X eficiência, X sustentabilidade.


    4. Estrutura lógica básica do funcionamento do sistema (capitalismo, socialismo, comunismo, nazismo):

    Monetarismo -(precisa de)–> lucro -(precisa de)–> desigualdade
    desigualdade -(implica em)–> criminalidade -(precisa de)–> leis.
    Leis não são naturalmente necessárias!
    Situação de: guerras, crises econômicas e injustiça; solução: diversão fútil e materialista.
    Futilidade não é natural do homem!

    5. Soluções propostas:


    Projeto Venus:
    ·         acabam-se publicitários, banqueiros e corretores da bolsa.
    ·         os políticos deveriam entender de à tecnologia e ciências humanas
    ·         X escassez programada, X monetarismo.
    ·         economia baseada em recursos. DESEJO DE GERAR ABUNDÂNCIA!
    ·         energia solar, eólica (3 estados suficientes para abastecer 50 nos EUA), energia das ondas do mar (50% de toda a energia necessária no planeta inteiro), energia geotérmica.
    ·         máquinas que libertam os seres humanos, e não os desempregam.
    ·         soluções técnicas para os problemas em sociedade, e não a criação de leis.

    Estratégias para chegar lá:
    ·         Expor as fraudes bancárias; boicotar Citibank, JP Morgan Chase, Bank of America.
    ·         Desligar o noticiário da TV; boicotar CNN, FOX, ABC, NBC.
    ·         Boicotar o Exército: 18 suicídios por dia de veteranos de guerra em todo o país; 25% dos sem teto em todo país são veteranos.
    ·         Boicotar as companhias de energia: em uma casa: buscar energia sustentável; em um carro: nunca usar gasolina.
    ·         Não votar. Boicotar a democracia monetarista hipócrita.
    ·         Juntar-se ao movimento, divulgando e fazendo circular informações sobre tecnologia.


    sobre o novo ou "nada novo sob o sol"

    "As inovações e o volume de informação parecem soterrar todo o passado, dando-nos a sensação de vivermos no eterno presente, ficcional ou virtual e, por que não dizer, mítico; transformando a produção do novo em objetivo em si, mais do que em ferramenta de viabilização de mais felicidade e/ou mais justiça social.


    Isso acaba por forjar um tempo fugaz, instável, fluido, mas permanentemente presente, resistente à crítica, resultante único e desejado de todas as sociedades.


    Demais formas de organização social são, assim, consideradas fadadas ao fracasso ou à adaptação face ao que se chama "sistema mundial", ou "globalização", ou ainda "pensamento único"; acaba-se assim por impor uma só norma e um único método capaz de organizar o saber sobre o homem em sociedade.


    Todo este processo produz uma espécie de incapacidade de ver o diferente como diferente, e não como inferior, tolo, incapaz, marginal, criminoso, inadaptado, exótico, produto. Enfim: tudo redunda em continuidade, a despeito do discurso elogioso do novo (repetitivo e desgastado - o novo panacéia)."

    Adaptado de: THEML, Neyde & BUSTAMANTE, Regina. História comparada: olhares plurais. Revista de História Comparada. v. 1. n. 1. junho de 2007.

    quarta-feira, 13 de abril de 2011

    Clarice Lispector

    Felicidade:
    "Querida, divirta-se, vá ao cinema, vá a lugares bons, leia os livros que você quiser, faça um pouco de regime, fique contente."

    "Por favor sejam felizes; eu o sou, a meu modo."

    "Maury, ao contrário do que eu pensava, só está em Nápoles há poucos dias, tendo ficado em Argel por um tempo com o resto da comitiva. Assim foi bom porque ele ficou com o irmão; o que eu gostaria de estar fazendo."

    "Um dia desses fomos ouvir Lohengrin e não gostei. Ópera é chata como ela só. E apesar de ser Wagner era pau e cansativa. O que eu sinto falta aqui é da Cinelândia, cheia de cinemas onde eu podia entrar a hora em que quisesse, sozinha ou acompanhada."
    "Minha irmãzinha querida, que vontade de abraçar você que me deu! Não sei quando irei ao Brasil, mas irei com você ao cinema e compraremos doces para nos enjoarmos bem enquanto assistimos o filme policial."

    Amor:
    "Diante de um começo de cena que eu fiz, horrivelmente magoada, ouvi de novo o que eu sabia desde sempre - sempre fui um pouco cínica - : a de que os homens são assim mesmo, que possivelmente a monogamia não seja o estado ideal, que naturalmente ele sente atração pelas mulheres; que a sensação é de um deslumbramento e timidez; disse que eu não interpretasse demais, mas que era uma vaga sensação de vaidade de alguém poder gostar dele.

    Perguntei: então você se sente na sociedade (vínhamos de estar com pessoas) como um rapaz que vai à festa? Ele respondeu que sim. Mas que eu seria sempre a melhor de todas e outras coisas do gênero. Que certamente sempre ele se controlava. Naturalmente até agora nunca houve nada. Em suma, é isso que você sabe.

    Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior; nunca pensei que uma pessoa, um homem, fosse diferente; mas como me sinto mal, como estou calcinada, como me parece estranho tudo o que me parecia familiar.

    Estou tão enjoada de mim e de todas as outras mulheres... Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair de mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga.

    Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens mas isso me cansa, e pior me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos."
    .
    .
    .
    Registros de viagem:
    "A vida é igual em toda parte e o que é necessário é a gente ser a gente."

    África, 1944:
    Tallah, Kabbe e Sasstown: "As negras de busto nu nos lugares onde eles aportaram, elas usam qualquer coisa para tapar, mas com uma displicência que dá no mesmo. De repente a gente ouve uns negrinhos gritarem: hello! Adoram dar adeus e riem tanto que a gente fica encabulada. Umas crianças têm o umbigo tão grande como laranjas. São tão, tão negros que Marcinha jamais chamaria aquela cor de "marrão". As negras jovens pintam o rosto com traços de creme e o lábio inferior com tinta cor de azinhavre, de chumbo. Uma delas me pediu meus sapatos. Carregam os filhos às costas."

    "Os negros andam em Bolama com roupas parecidas às dos árabes, se bem que diferentes em cor e em modo de atar (o que torna, enfim, tudo diferente...). E falam português de Portugal, imaginem."

    "Dakar é muito bonito, grande, mas o aspecto é de cidade pequena. Tem praias com rochedo, lindas. Mas faz um calor insuportável."

    "O avião estava cheio de missionários. Não sei para que vão perturbar os pobres negros."

    Portugueses:
    "Viajei também com vários, todos ligeiramente burros."

    "Quando estive em Lisboa que não está em guerra, fiquei boba. Não se dá um passo sem que alguém não peça esmola. E me disseram que a prostituição lá é terrível, abundantíssima e desde a idade de 13, 14 anos. A guerra é boa talvez no sentido de chamar a atenção para certos problemas. Talvez incorporem estes na resolução de outros propriamente de guerra."

    "Lisboa não me agradou. Eu pensava encontrar coisa diferente. O Rio é milhões de vezes mais bonito e mais cidade. Os portugueses são paus. As portuguesas não se vestem bem, têm todas mandíbulas de cão e rosto meio duro. Estou chateada aqui. Encontrei Ribeiro Couto, da Embaixada, que me levou a passeios realmente bonitos. Mas estou chateada. Imaginem que aqui às 10 horas da noite faz sol ainda. é detestável. Não estou tendo prazer em viajar.Gostaria de estar aí com vocês."

    segunda-feira, 11 de abril de 2011

    2 mundos

    eu disse:
    começa com surpresa e admiração.
    depois, parte pro aprendizado.
    segue por companheirismo, pela parceria ser boa.

    ele não concordou.
    disse:
    começa com um raio.
    depois, vem a luta. dor feroz e inescapável.
    alivia na serenidade da paixão, do amor e do sexo.

    Klee e Benjamin

    O anjo da história deve ter esse aspecto.

    Seu rosto está dirigido para o passado.
    Onde nós vemos uma cadeira de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
    Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e junta fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
    Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.

    domingo, 10 de abril de 2011

    deja vu (segundo portuga do dia)

    Que a vida tem ironias, diz-se, quando o certo é ser ela a mais obtusa de todas as coisas conhecidas, um dia deve ter havido alguém que lhe disse, Segue em frente, sempre em frente, não saias do caminho, e desde aí, inepta, incapaz de aprender com as lições que faz gala de nos dar, não tem feito mais que cumprir às cegas a ordem que lhe deram, atropelando quanto vai encontrando por diante, sem parar para avaliar os estragos, para pedir-nos desculpa, ao menos uma vez.
    Saramago, O homem duplicado.

    tão longo adeus para breve vida

    há zonas da cidade que evito, uma série de restaurantes
    onde não penso voltar. tenho muito medo de te encontrar. só ou acompanhada, tanto faz. minto. o ciúme ataca a horas incertas mesmo depois de tudo se julgar acabado. muito medo de não poder saber de antemão o que vou sentir, como vai ser, não poder antever o golpe. o medo de todas as palavras ridículas, e todas elas serão ridículas, de todos os gestos desajeitado, e não haverá nenhum que possa reclamar como meu. medo de ficar a pensar violentamente em ti du-rante horas, sabe-se lá onde, sem conseguir regressar ao normal correr do tempo. uma intromissão que exige o álcool que se põe, embebido em algodão, na ferida que reabriu para que de novo arda, palavras aflitas de uma conversa em que só eu estou de facto interessado e vou aumentando a parada provocando a memória até que faça doer. e depois o regresso a casa com o corpo anestesiado, a música aos berros, a vontade que tudo se desfaça no instante para o qual falta a coragem. chegar a casa e agarrar numa última garrafa e nas tuas fotografias até me virem os: vómitos, as lágrimas, o ranho que expulse de mim o que guardo no mais fundo e me traz a vida vazia e inútil.
    tenho tanto medo de te encontrar que mesmo nunca te encontrando estás mais presente que todos os que vejo girar à minha volta.

    pedro paixão

    terça-feira, 29 de março de 2011

    Freud e a academia

    Profissionalmente, as frustrações que o perseguiam desde o início da carreira provocaram, em 1895, uma amargura que beirava o desespero. Querendo ser cientista pesquisador, desde cedo Freud fora obrigado, pela sua pobreza, a seguir a carreira médica. É verdade que, em 1885, ganhou com facilidade uma invejável bolsa de estudos em Paris, e logo depois foi indicado para um hospital da universidade, onde podia ter material clínico de ensino e pesquisa. Mas o hospital infantil de Viena, ao qual, desde 1886, se associou por dez anos, poucas oportunidades de pesquisa e nenhum prestígio podia lhe oferecer. Fracassaram as tentativas de transformá-lo numa clínica aplicada da universidade. A afronte mais mortificante que Freud teve de sofrer, porém, foi não conseguir uma cátedra. Sua longa espera - ao todo, dezessete anos, sendo que a regra, na faculdade de medicina, eram oito anos - coroou seu isolamento intelectual, a frustração profissional e o mal-estar social pelo que aparentava ser um fracasso acadêmico (SCHORSKE, 182).

    Quando, aos 45 anos, foi finalmente nomeado como professor-adjunto, o ainda desconhecido dr. Freud relatou o evento a um amigo com uma paródia jornalística. Descreveu sua promoção como uma vitória política.
    O entusiasmo  público é imenso. Chovem congratulações e ramalhetes de flores, como se o papel da sexualidade tivesse sido repentinamente reconhecido por Sua Majestade, a interpretação dos sonhos ratificada pelo Conselho de Ministros e a necessidade da terapia psicanalítica da historia aprovada por maioria de dois terços no Parlamento (SCHORSKE, 179).

    Em uma outra carta, menos chistosa e amarga, na qual confessava ter recorrido à ajuda de pessoal socialmente influentes para a obtenção do cargo, escreveu:
    Quando voltei de Roma, meu gosto pela vida aumentara um pouco, meu gosto pelo martírio diminuíra. (...) Assim, me decidi romper com meus escrúpulos estritos e dar os passos apropriados. (...) É preciso procurar a salvação pessoal em algum lugar, e a salvação que eu escolhi foi o título de professor. (SCHORSKE, 182).

    SCHORSKE, Carl. Viena: fin-de-siècle: política e cultura. São Paulo: Cia das Letras/ Editora da Unicamp, 1989.

    quarta-feira, 16 de março de 2011

    ilusões de grandeza

    - ah, meu filho, se você não ganhou o prêmio é porque na comissão julgadora só tinha burro!
    - ah, papai! vc é o maior!
    - mas é, meu filho, se você tirar as melhores notas da turma, eu te dou um presentinho...
    - ah, papai! você é o mais engraçado, o mais legal, o mais bem sucedido, o mais MAIS!
    - ô, fiote! vc tem que dar tudo de si! no futuro vc já vai estar acostumado. vc vai ver: o mercado de trabalho não perdoa!
    - ah, papai!








    "A educação em nossos meios familiares se limita, em regra, a estimular a competitividade, excitar a ambição e despertar no espírito a vaidade e as ideias de grandeza. Isto não sucede por inconsideração, mas porque toda a nossa cultura se acha infiltrada de similares ilusões.
    Na família, assim como em nossa civilização, o interesse se volta para o indivíduo maior melhor e mais glorioso do que todos os outros de seu meio.
    Como se pode facilmente prever, esse método é bem pouco interessante à vida em coletividade. O é, também, aos indivíduos, separadamente, pois ocorre que seu desenvolvimento mental pode ser entravado pelas dificuldades que a ambição e as ilusões de grandeza atravessam em seus caminhos."
    ADFLER, Alfred. A ciência da natureza humana. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.

    terça-feira, 15 de março de 2011

    ...

    “Não existem provas concretas da realidade total, nem sólidas certezas – exceto as da angústia, da dúvida e do enigma.”


    Murilo Mendes

    segunda-feira, 14 de março de 2011

    ...

    "Há várias maneira sérias de nao se dizer nada.
    Mas só a poesia é verdadeira."

    Manoel e Barros.

    grande idéia

    nem sempre menos é mais; pode ser insuficiente
    mas acá uma tirinha enxuta e boa: sem blablabla acrítico, repetístico e contraproducente pró-140 caracteres

    o intérprete de Château Meguru

    Salomón Toledano se gabava de falar 12 línguas e poder interpretar todas elas em ambas as direções. Geralmente traduzia para o inglês, mas quando era preciso também o fazia para o francês, espanhol e outros idiomas, e sempre me maravilhou a fluidez com que se expressava na minha língua sem nunca ter morado num país de fala hispânica. O mais extraordinário era ouvi-lo falar em chinês ou japonês, porque então, sem perceber, fazia poses, mesuras e gestos dos orientais, como um verdadeiro camaleão.

    Todo mundo o admirava e invejava, mas poucos dos nossos colegas gostavam dele. Ficavam incomodados com sua loquacidade, sua falta de tato, suas criancices e avidez com que monopolizava as conversas. Um dia, na sala de intérpretes da Unesco, resolveu nos interpelar assim: “E se, de repente, sentirmos que vamos morrer e nos perguntarmos ‘Que rastro deixaremos de nossa passagem por este canil?’, a resposta honesta seria: nenhum, não fizemos nada, além de falar pelos outros. O que significa, então, ter traduzido milhões de palavras se não nos lembramos de nenhuma, porque nenhuma merecia ser lembrada?”

    Falava de maneira espalhafatosa e às vezes vulgar, porque, embora soubesse as generalidades dos idiomas, desconhecia os matizes, tons e usos locais, o que muitas vezes o fazia parecer tosco ou grosseiro. Não era um homem de muitas leituras, exceto gramáticas e dicionários, nem tinha grande interesse por cultura. O contrário da minha suposição de que as pessoas se tornam poliglotas devido ao seu bom ouvido musical, Salomón Toledano também não tinha o menor interesse por música. No seu apartamento em Neuilly não vi sequer um toca-discos.

    Graças a ele descobri que a predisposição para idiomas é tão misteriosa como a de certas pessoas para a matemática ou a música, e não tem nada a ver com a inteligência ou o conhecimento. É uma coisa diferente, um dom que alguns possuem e outros não.

    VARGAS LLOSA, Mario. Travessuras da menina má. Rio: Objetiva, 2006.

    domingo, 13 de março de 2011

    aprender com freud

    "Uma interpretação é um pequeno experimento, oferecido com toda a boa-fé.” 


    GAY, Peter. Freud para historiadores. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p. 69.

    quinta-feira, 3 de março de 2011

    a imprensa impressa e a nova geração

     "Movida por sua índole novidadeira, a mídia comercial não só abraça,  com entusiasmo, o conceito de geração, como ajuda enormemente a  vulgarizá-lo afinado com premissas e interesses do atual estágio do capitalismo.

    As matérias jornalísticas cumprem, assim, uma função NORMATIVA, na medida em que colaboram para a difusão de um modelo de comportamento juvenil adequado à configuração contemporânea do capitalismo: flexibilização de seus procedimentos, instalação de imperativos de volatilidade, rapidez e desterritorialização.

    O tom, em regra, é de euforia diante de uma enxurrada de novidades, acerca das quais é preciso tomar partido, atualizar-se para “não ficar pra trás”. A imprensa tende a celebrar a aptidão extraordinária dos “cyberkids” perante as máquinas e a festejar as mudanças desencadeadas nos processos cognitivos, quase sem questionar a favor de quê serão utilizados tais saberes e expertises; em geral restringindo-se à inserção na disputa pelo competitivo mercado de trabalho."

    Adaptado de:
    FREIRE FILHO, João & LEMOS, João Francisco. Imperativos de conduta juvenil no século XXI: a "geração digital" na mídia impressa brasileira. In: Revista Comunicação e juventude. v. 5. nº. 13. 2008.

    Conferir original:

    o facebook e a nova geração

    "Os criadores de mundos, de redes sociais, partem sempre de uma mesma pergunta: COMO eu consigo isso? A Zuckerberg, a outra questão, a questão de ordem ética, só lhe ocorreria mais tarde: Por quê? Por que o Facebook? Por que nesse formato? Por que dessa maneira, e não de outra?
    Ao contrário do que parecem pregar tantos web-teóricos de plantão, as redes sociais não foram criadas com intenções humanísticas, filantrópicas, democráticas. A meta de Zuckerberg, por exemplo, ao que tudo indica, é a própria conexão. A qualidade da conexão, a qualidade da informação que passa por ela, a qualidade das relações que essa conexão permite – nada disso é importante. Zuckerberg, para dizer o mínimo, se mostra pouco interessado pelas questões filosóficas relacionadas à privacidade – e a própria integração social – suscitadas por seu engenhoso programa.
    ...
    Assistindo a entrevistas com Zuckerberg, me surpreendi à espera da presença de espírito, do sarcasmo contido e articulado do jovem e famoso Zuckerberg, mas então me lembrei que conhecia apenas a criação do filme. Comedido mas maçante, claro e despojado, mas sem nenhum brilho maior, desprovido de ideologia ou afeto.
    Em seu perfil publicado pela New Yorker, lê-se que sua própria página do Facebook relaciona, entre seus interesses, o minimalismo, as revoluções, e a “eliminação do desejo”. Sim, Zuckerberg, com suas relação estável, sua casa alugada e sua recusa em se mostrar irritado diante das câmeras de tevê, mesmo quando tratado com extrema grosseria (nesses casos, limita-se a suar), tem algo da aparência de uma adolescente estóico.
    Bom, se você elimina o desejo, não tem mais nada a esconder, não é?
    Sim, é esse tipo de rapaz que acha uma boa idéia REDUZIR a privacidade das pessoas.
    ...
    O Facebook Connect é o próximo passo da plataforma Facebook.
    O que penso a respeito? Por um lado, se nosso nome e nossa rede social nos acompanham por todo o mundo virtual para além do Facebook, cada um de nós precisará lançar mão de uma certa compostura, assim como todos os circunstantes.
    Por outro lado, também levaremos para todo lado a lista de coisas de que gostamos ou não, nossas preferências e nossas escolhas, todas associadas aos nossos nomes. A partir disso irão tentar vender coisas para nós.
    Ou talvez toda a internet fique parecida com o Facebook: falsamente alegre, falsamente amistosa, voltada principalmente para a autopromoção e engenhosamente dissimulada.
    ...
    Será realmente isso o melhor que se pode fazer na web? No filme “A rede social”, Sean Parker, durante uma de suas “maratonas de monólogo” alimentadas a cocaína, tenta definir toda uma geração: “Vivíamos no campo, fomos viver nas cidades e agora vamos viver na internet.”
    De que tipo de vida estamos falando?
    O cientista da computação Jaron Lanier afirma que “você precisa ser alguém antes, para poder se compartilhar”. Para Zuckerberg, porém, ser alguém JÁ É compartilhar suas preferências com todo mundo e fazer o que todos estiverem fazendo.
    Aham: as identidades despojadas que assumimos na rede não mostram mais liberdade.
    Com o Facebook, Zuckergerg parece ter tentado criar algo semelhante a uma noosfera. Uma realidade dominada por um pensamento único, um ambiente uniforme em que na verdade não importa quem a pessoa seja, contanto que continue a fazer suas “escolhas” (as quais, em última análise, se traduzem em decisões de compra).
    Para nós mesmos, somos pessoais especiais, o que está devidamente documentado em fotos maravilhosas. Para os anunciantes, somos nossa capacidade de compra, anexada a algumas fotos pessoais totalmente irrelevantes.
    ...
    O Facebook poderia ser um grande marco se fosse uma interface realmente interessante, criada para acolher os jovens 2.0 que são genuinamente diferentes. Só que isso não é o que acontece. O que vemos é o mesmo velho faroeste da internet, só que domesticado para se ajustar às fantasias de almas medianas, massificadas, com humor homogeneizado e, tal como Zuckerberg, sem brilho.
    É. Talvez eu esteja exagerando na nostalgia, sonhando com uma internet que atenda os interesses de um tipo de pessoa que não existe mais. Uma pessoa reservada, que seja um mistério para o mundo e – principalmente – para si mesma."

    Adaptado de:
    SMITH, Zadie. Quero ficar na geração 1.0. In: Revista Piauí. fevereiro de 2011.

    quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

    novidade e capitalismo

    --> sobre o que há de NOVO num sistema capitalista.
    --> sobre o velho novo.
    --> sobre o novo velho.
    --> sobre a mediocridade universal.

    "Se, como Marx acredita, os membros da burguesia de fato desejam um mercado livre, sua opção será forçar a livre entrada de novos produtos no mercado. Isto implica, em contrapartida, que toda sociedade burguesa desenvolvida de maneira plena seja uma sociedade genuinamente aberta, não apenas em termos econômicos mas também políticos e culturas, de modo que as pessoas possam sair livremente às compras e à procura dos melhores negócios em termos de idéias, associações, leis e compromissos sociais, tanto quanto em termos de coisas.


    O princípio da livre troca forçaria a burguesia, portanto, a garantir até mesmo aos radicais o direito de oferecer, promover e vender seus produtos ao maior número de consumidores que seguirem atrair. Em outras palavras: impelida por suas próprias energias e movimento, a burguesia abrirá as comportas políticas e culturais através das quais fluirão transformações efetivamente profundas.


    Essa dialética oferece algumas dificuldades. Haveria mesmo uma plena adesão da burguesia ao princípio da livre troca, seja em economia, em política ou em cultura? De fato, na história burguesa esse princípio tem sido mais honrado na violação do que na observância. Os membros da burguesia, sobretudo os mais poderosos, em geral se esforçam por restringir, manipular e controlar seus mercados. Muito de sua energia criativa, ao longo dos séculos, tem sido canalizada para arranjos nesse sentido: monopólios por concessão, companhias acionistas, trustes, cartéis e conglomerados., tarifas protecionistas, subsídios estatais abertos ou disfarçados, tudo isso acompanhado de hinos em louvor do livre mercado.


    Aqui Marx pode correr o perigo - um perigoso perigo para ele - de ser arrastado pelo que dizer os ideólogos burgueses e de perder o contato com o que os homens de dinheiro e poder REALMENTE FAZEM. Marx diria que a necessidade de progresso e inovação capitalista forçaria os burgueses a abrir suas sociedades até mesmo às idéias que os atemorizam. No entanto, a engenhosidade burguesa pode impedir isso, através de uma dada inovação verdadeiramente insidiosa: um consenso em termos de mediocridade.


    Marx diz que, quando atuam como FREIO no livre desenvolvimento, as estruturas características do sistema capitalista tendem a ser simplesmente eliminadas. "Precisam ser aniquiladas, estão aniquiladas", ele diz. Mas o que aconteceria se, por acaso, elas não fossem aniquiladas? Marx se permite imaginar essa hipótese por um instante, para descartar a possibilidade. "Perpetuar tal sistema social seria decretar a MEDIOCRIDADE e universal". E isso é talvez o que Marx é profundamente incapaz de aceitar."

    BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras, 2005.